A História do Homem-Aranha nos quadrinhos [Parte 3]

Publicado: 19/10/2011 por Márcio Alexsandro Pacheco em Artigos, Quadrinhos (Comics)
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A bela capa de “Amazing Spider-Man 600” por John Romita Jr.

Esta é a terceira (e última!) parte da História do Homem-Aranha nos quadrinhos, um levantamento editorial e cronológico. Se você não leu as partes anteriores, siga os links da Parte 01 e da Parte 02.

O terceiro capítulo de nossa jornada vivencia o casamento do personagem, sua fase de maior sucesso comercial, uma grave crise criativa em meados dos anos 1990, um período de reinvenção, de polêmicas decisões editoriais e, agora, inicia uma nova fase que ainda deixa os leitores confusos se estaria tudo bem ou não. Vamos lá!

Estudos para o Duende Macabro por Alex Ross: polêmica em torno de sua identidade abalou o corpo editorial do Homem-Aranha.

Casamento e Vida Nova

Estamos em 1987 e o Homem-Aranha viveu uma espécie de “guerra civil” em termos editoriais. Uma disputa sem precedentes marcou os bastidores da revelação da identidade secreta do Duende Macabro, o vilão criado por Roger Stern e John Romita Jr. em 1983 e que, desde então, era o principal oponente do herói. Como Stern deixou o título Amazing Spider-Man por discordâncias editoriais acerca da adesão ao novo uniforme negro do Homem-Aranha, coube ao escritor Tom DeFalco dar prosseguimento à trama de mistério envolvendo o vilão. Contudo, as ideias de DeFalco entraram em choque o corpo editorial da Marvel, particularmente com o Editor-Chefe Jim Shooter e o editor assistente responsável pelas revistas do Homem-Aranha, Jim Owsley.

Assim, DeFalco também foi afastado do título e substituído pelo próprio Owsley. Contudo, o escritor também não pôde fazer a revelação do segredo do Duende Macabro e Jim Shooter encarregou Peter David (que escrevia a revista secundária Peter Parker: The Spectacular Spider-Man) de fazê-lo. Só que a revelação de David – de que Ned Leeds era o Duende Macabro – entrava em contradição com tudo o que havia sido planejado por Stern, DeFalco e Owsley apesar das enormes discordâncias entre todos eles. Como resultado, houve uma grande reformulação editorial nas três revistas do aracnídeo – a outra era Web of Spider-Man – e a identidade do Duende Macabro se tornou uma espécie de tema tabu, quase proibido de ser citado. Ajudava o fato de que Peter David introduziu um novo Duende Macabro, incorporado por Jason Macendale (ex-Halloween), o próprio mandante do assassinato do original.

Por pouco tempo, Peter David continuou nas revistas do Homem-Aranha. Apesar de ter escrito Amazing Spider-Man 289 (com a revelação do Duende Macabro), ele permaneceu em Spectacular, trabalhando com o desenhista Alan Kupperberg. Proibido de citar aquele vilão (o que diminuiu bastante o impacto da própria revelação), o escritor desenvolveu um arco de histórias , entre as edições 126 a 129, onde o romance do Aranha com a Gata Negra se encerrou definitivamente quando o herói soube que ela ajudou o misterioso Estrangeiro a criar uma armadilha para o cabeça de teia. Além disso, em outras das estranhas ideias de David, se revela que o capitão Thomas Keating nada mais era do que o próprio Estrangeiro disfarçado.

Edição especial do casamento do Homem-Aranha por Shooter, Michelinie e Paul Ryan. A capa é de John Romita (o pai).

Como parte da reformulação, Amazing foi ocupada pela nova dupla David Michelinie e John Romita Jr, a partir da edição 290. Romita Jr. voltava ao título após alguns anos e a dupla reprisava a parceria que levou ao cabo algumas das melhores histórias doHomem de Ferro no fim dos anos 1970. Entre Amazing Spider-Man 290 e 292, cansado e desiludido, Peter Parker decide pedir Mary Jane Watson em casamento mais uma vez. Ela novamente negou, afirmando que eram somente amigos, mas depois de uma visita ao seu pai (com quem sempre teve problemas) e ter sua vida salva, mais uma vez, pelo Homem-Aranha, a ruiva decidiu aceitar.

Momento histórico: Mary Jane finalmente diz “sim”. Texto de David Michelinie e arte de John Romita Jr.

O casamento do Homem-Aranha foi um evento bombástico em 1987 e foi o principal fruto da tal reformulação editorial. Curiosamente, o evento teve sua origem em uma disputa entre as revistas regulares do personagem e uma nova série de tiras de jornal escritas pelo próprio Stan Lee, o criador do Homem-Aranha. Nos jornais, Lee planejou uma história em que Peter Parker iria se casar com Mary Jane e, ao saber disso, o Editor-Chefe Jim Shooter decidiu que tal fato não podia ocorrer primeiro nos jornais e só depois nas revistas do cânone oficial.

Então, às pressas, foi produzida uma história que mostrasse o enlace matrimonial do casal, após as conseqüências do arco de Michelinie e Romita Jr. Assim, Peter e MJ se casaram nas escadarias da biblioteca nacional, com Harry Osborn e Flash Thompson como padrinhos em Amazing Spider-Man Annual 21, de 1987, escrita por Jim Shooter e David Michelinie e desenhada por Paul Ryan. Foi uma decisão polêmica que renderia muita confusão anos depois.

Página de “A última caçada de Kraven”: épico sombrio por J.M. DeMatteis e Mike Zeck.

Enquanto ocorria o casamento, para não cirar choques cronológicos, a Marvel ocupou todas as três revistas do Homem-Aranha com a publicação de um arco de histórias chamado Terrível Semetria, escrito por J.M. DeMatteis e desenhado por Mike Zeck, alternando-se entre Web of Spider-Man 31 e 32, Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 131 e 132 e Amazing Spider-Man 293 e 294.

A trama mais tarde conhecida como A última caçada de Kraven era um triller adulto, violento e sombrio no qual Kraven, o caçador, luta para destruir a imagem do Homem-Aranha. O herói é baleado e enterrado vivo, luta contra Ratus (personagem trágico criado pela mesma dupla nas histórias do Capitão América) e termina com Kraven cometendo suicídio. DeMatteis estava em ascensão como um dos principais escritores dos quadrinhos. Relativamente novato, começou na Marvel, já nos anos 1980, escrevendo as aventuras dos Novos Defensores, mas logo emplacou uma famosa (e polêmica ) temporada no Capitão América (Leia mais aqui). Curiosamente, apesar da violência e seriedade da história, depois do arco com o Homem-Aranha, o escritor mudou-se para a concorrente DC Comics e criou um sucesso enorme com a versão cômica da Liga da Justiça, entre 1988 e 91.

Após o grande arco das três revistas, era preciso que os escritores adaptassem a rotina do Homem-Aranha à vida de casado. Quem mais se empenhou no assunto foi David Michelinie que escreveu uma história com a lua de mel de Peter e Mary Jane atrapalhada pelo Puma e a busca a um objeto valioso, entre Amazing Spider-Man 295 e 297, com desenhos de Alan Kupperberg.

A revista Web of Spider-Man, após aquele arco triplo, se transformou em mais uma revista “de linha” do Homem-Aranha e não mais um casa de “histórias especiais”. Quem foi convidado para inaugurar essa nova fase da revista, a partir da edição 33, foi o veterano Gerry Conway, um dos mais bem-sucedidos escritores do personagem em todos os tempos (leia a Parte 02).  Com traços do ótimo desenhista Alex Saviuk, Conway mostrou o retorno triunfal do Dr. Octopus, após anos de ausência.

As capas de “Spectacular Spider-Man” 134 a 136: volta de Sal Buscema e fim da temporada de Peter David.

Já a revista Peter Parker perdeu o “nome real” do personagem e passou a se chamar oficialmente apenas The Spectacular Spider-Man. Peter David escreveu um arco em quatro partes que trouxe o retorno e a morte do Devorador de Pecados, o vilão que criara em sua primeira história. Nas edições 133 a 136, o ex-policial Stanley Carter sai do hospício e decide escrever um livro de memórias sobre sua carreira criminosa, mas tem que lidar com o fardo de seus atos. Ao mesmo tempo, o Homem-Aranha se sente absolutamente culpado porque a surra que deu em Carter (em Spectacular Spider-Man 107, de 1985) o transformou em uma pessoa fisicamente debilitada, quase um aleijado. O medo de machucar alguém da mesma forma termina levando o aracnídeo a ser derrotado por Electro e Parker tem que vencer os próprios medos e traumas para impedir a volta de Electro e do Devorador de Pecados.

As duas personalidades de Stanley Carter (ele mesmo e o Devorador de Pecados): drama psicológico de Peter DAvid e a arte exuberante de Sal Buscema de volta.

A história de conteúdo excelente foi o marco de dois eventos: por um lado marcou o retorno do desenhista Sal Buscema às revistas do Homem-Aranha (leia a Parte 02). Seu traço expressivo de linhas retas e quadradas voltou a abrilhantar o universo do cabeça de teia. Por outro, foi a despedida de Peter David. Como resquíscios das rugas citadas acima, o editor Jim Owsley conseguiu com que David fosse demitido sob a alegação de que seu trabalho estava “abaixo do padrão” do Homem-Aranha. É no mínimo curioso que Spectacular era, naquela altura, a melhor revista do personagem. David, que já vinha escrevendo a revista do Incrível Hulk de maneira absolutamente genial, ficou com o monstro por mais de 10 anos e, pouco depois, também assumiria a revista do X-Factor, grupo ligado aos X-Men.

Arte de Todd McFarlane para “Amazing Spider-Man 300”, de 1988.

A chegada de Todd McFarlane e uma fase de grande sucesso

Há anos, quando ainda escrevia Web of Spider-Man, David Michelinie planejava criar um novo vilão baseado no uniforme negro e no alienígena simbionte. Agora no comando de Amazing Spider-Man, o escritor decidiu por em prática suas ideias. O arco em que desenvolveu isso, entre os números 298 e 300, de 1988, também trouxeram um novo desenhista: Todd McFarlane. Este canadense era um artista ainda novato, que tinha feito alguns trabalhos na DC Comics (como a minissérie Invasão e o arco Batman: Ano Dois) e, na Marvel, estreara na revista The Incredible Hulk escrita por Peter David. O desenho cheios de traços de McFarlane caiu como uma luva no gosto dos leitores da época e fez tanto sucesso que começou a fazer capas e posters para outros personagens. Suas ilustrações do Homem-Aranha chamaram a atenção e, logo, foi transferido para as revistas do escalador de paredes.

Eddie Brock e Venom na arte de Todd McFarlane.

Michelinie e McFarlane criaram uma história em que um repórter do Globo Diário encontrava o uniforme simbionte (que todos pensavam ter sido destruído) e se tornava um monstro chamado Venom. O alienígena queria se vingar de Peter Parker por tê-lo abandonado e Eddie Brock também nutria ódio pelo Homem-Aranha. Seu motivo era uma “história retroativa” que Michelinie criou dentro do famoso arco A Morte de Jean DeWolff, de Peter David: em sua investigação, Brock pensava ter descoberto a identidade secreta do Devorador de Pecados, mas quando o Homem-Aranha prendeu Stanley Carter arruniou a carreira do jornalista.

O estilo de McFarlane mudou o visual do Homem-Aranha e se transformou no principal referencial da década seguinte.

De posse do alienígena simbionte, Brock se transformou em um monstro com a mesma aparência do uniforme negro, só que com uma enorme boca, chamando a si mesmo de Venom. Sabendo da identidade de Peter Parker, ele invade seu apartamento e assusta Mary Jane. O Homem-Aranha consegue derrotá-lo (novamente com a arma de raios sônicos do Quarteto Fantástico) e decide não usar mais o uniforme negro para não ser confundido com o novo vilão. Este arco fez um grande sucesso e tornou Venom o principal vilão do Homem-Aranha nos anos 1990.

O visual de Todd McFarlane para o uniforme clássico do Homem-Aranha mudou completamente o estilo do personagem: muitas linhas, traços grossos, olhos enormes, poses dinâmicas e uma teia muito mais detalhada. Era um visual mais sujo do que o padrão de John Romita, resgatando algo de Steve Ditko. Logo, esse visual se tornaria a principal referência para todos os demais artistas do universo do aracnídeo. Mesmo o veterano Sal Buscema aderiu a alguns desses elementos estéticos. E Mary Jane também foi afetada, deixando de ter cabelos lisos para um penteado mais volumoso e com cachos.

McFarlane também mudou o visual de Mary Jane: mais sensual e com mais cabelo.

No plano editorial, a Marvel passava por transformações. Após 10 anos de uma gestão muito polêmica, o Editor-Chefe Jim Shooter foi afastado do cargo e substituído por (que ironia) Tom DeFalco. Este continuou escrevendo as histórias do Thor (e eventualmente dos Vingadores) e deu bastante atenção ao Homem-Aranha. Além disso, a gestão de DeFalco impôs um ritmo de muita interligação entre as revistas e não raro eventos de uma se transferiam para outra, como no caso dos três títulos do Homem-Aranha (Amazing, Spectacular e Web). Iniciava-se a Era dos Crossovers, o que inicialmente deu certo e aumentou bastante as vendas.

Michelinie e McFarlane transformaram Amazing em um fenômeno de vendas como não era há muito tempo. Além da arte chamativa de McFarlane, David Michelinie também se destacava criando bons roteiros, recheados de ação e humor. As histórias mostravam o desenvolvimento de Peter e Mary Jane como casados, não só sentimentalmente, mas profissionalmente, também. A carreira de modelo de Mary Jane ia entrando em ascensão, enquanto Peter lançava um livro com as fotos que tirou do Homem-Aranha, chamado Webs (Teias), o que lhe fez viver seus “15 minutos de fama”.

O estilo mais clássico de Alex Saviuk serviu de contraponto à mudança de visual.

Michelline e McFarlane construíam arcos de histórias específicos, como O Rapto de Mary Jane, uma aliança com o Capitão América contra o Caveira Vermelha, participações especiais da mercenária Silver Sable e do Homem-Areia (na época tentando viver do lado da lei) e confrontos com Escorpião, Camaleão e, claro, Venom.

Gerry Conway e Alex Saviuk criavam histórias muito boas em Web e a saída de Peter David de Spectacular fez com que Conway também assumisse essa revista, repetindo a parceria com Sal Buscema que haviam realizado nos primeiros números do título, lá no distante 1976. O primeiro arco foi uma história em que o Aranha se junta ao novo Capitão América (John Walker, que substituiu Steve Rogers por pouco tempo) contra o Tarântula, inclusive repetindo elementos referentes às minorias étnicas que tinham desenvolvido nos velhos tempos.

Duende Verde 2 vs. Duende Macabro 2. Capa de “Amazing Spider-Man 312” por Todd McFarlane.

As ligações editoriais também pagaram um preço: os leitores eram obrigados a ver o Homem-Aranha tendo que combater os demônios que invadiram Nova York na saga Inferno dos X-Men. E os roteiristas aproveitaram a deixa para criar uma história em que o Segundo Duende Macabro (Jason Macendale) perseguisse Harry Osborn atrás da “fórmula de Mendell Stromm” que deu poderes a Norman Osborn, já que Macendale era apenas um homem comum. Essa história prosseguiu pelas três revistas. Essa história permetiu a realização de um antigo sonho dos leitores quando colocou Harry Osborn vestido de Duende Verde contra o novo Duende Macabro, em Amazing Spider-Man 312, por Michelinie e McFarlane, em 1989. No final, numa história de Conway e Buscema, Macendale faz um pacto com um demônio e termina se transformando em um monstro.

Lápide foi o principal vilão da fase de Gerry Conway e Sal Buscema em “Spectacular Spider-Man”. Capa da edição 142, de 1989.

Conway também desenvolveu arcos mais longos e independentes. Em Spectacular, ele e Buscema criaram uma história repleta de teor psicológico em que Joe “Robbie” Robertson é perseguido por um equivoco do passado transfigurado no novo vilão Lápide, um albino que foi seu amigo na infância e se tornou um temível assassino de aluguel. Já em Web, Conway e Saviuk criaram uma nova guerra de gangues capitaneada pelos Irmãos Lobo, dois gêmeos mafiosos de origem latina e que se transformavam em lobisomens.

Mais sucesso ainda

Erik Larsen substituiu Todd McFarlane em “Amazing Spider-Man” mantendo seu estilo. Aqui, um confronto com o novo Sexteto Sinistro.

O sucesso de Todd McFarlane em Amazing era tão grande que a Marvel decidiu dar-lhe de presente uma revista do Homem-Aranha para ele “brincar”. Essa publicação traria histórias sem grande influência cronológica, mas em compensação, McFarlane assumiria também os roteiros. Seu lugar em Amazing foi ocupado por Erik Larsen, artista tinha desenhado um dos capítulos da Guerra de Gangues de Jim Owsley (veja Parte 02) e agora voltava com um novo traço diretamente inspirado em McFarlane. O principal arco dele na revista foi a volta do Sexteto Sinistro, com a substituição do falecido Kraven pelo Segundo Duende Macabro, agora em sua versão demoníaca.

Capa de “Spider-Man 01”, de 1990, por Todd McFarlane: recordista de vendas.

Em agosto de 1990, o escalador de paredes passou a ter quatro revistas mensais: Amazing Spider-Man, com Michelinie e Larsen; Spectacular Spider-Man, com Conway e Buscema; Web of Spider-Man, com Conway e Saviuk; e Spider-Man, com Todd McFarlane.

Em seu primeiro arco solo, Todd McFarlane reformulou o visual do Lagarto.

Ainda assim, o número um de Spider-Man de McFarlane vendeu dois milhões de cópias, um recorde absoluto para a época. McFarlane desenvolveu a saga Tormento, evolvendo a viúva de Kraven (Calipso) e o Lagarto; depois, uma história com Wolverine e o Wendigo; um combate com o Duende Macabro demoníaco, juntamente com o Motoqueiro Fantasma; uma história contra Morbius, na qual o Homem-Aranha usava o uniforme negro uma vez mais; além de confrontos com o Hulk e o Fanático.

No entanto, a empreitada de McFarlane só durou 14 números porque o autor entrou em choque direto com a direção da Marvel, que se recusou a lançar uma revista nova com um personagem de sua autoria. Em resposta, se demitiu da Marvel e ainda levou consingo os desenhistas mais famosos da casa: Jim Lee, Marc Silvestri, Rob Liefeld e, pouco depois, Erik Larsen. Os desertores fundaram a editora Image Comics, onde cada um administrava um selo independente e criava o que quisesse. McFarlane criou o Spawn, que se transformou em um dos maiores sucessos dos quadrinhos da época. A Image xhegou a ameaçar o domínio de Marvel e DC Comics por um tempo.

Sem McFarlane, Spider-Man foi ocupada por Erik Larsen, que também passou a escrevê-la e desenhá-la, mas por pouco tempo, pois ele também foi para a Image (onde criou o Savage Dragon). Spider-Man virou, então, uma revista para artistas convidados escreverem suas próprias histórias do Aranha, como havia sido Web of Spider-Man antes dela.

O fabuloso arco “A criança interior” marca o início da temporada de J.M. DeMatteis em “Spectacular Spider-Man”. Capa da edição 180 por Sal Buscema.

Gerry Conway deixou a revista Spectacular em 1991 e seu lugar foi ocupado com a volta de J.M. DeMatteis, agora pela primeira vez em uma temporada completa. Os desenhos continuaram nas mãos de Sal Buscema. Com roteiros que sempre exploravam os aspectos psicológicos dos personagens, DeMatteis deu início com o arco A criança interior, entre as edições 178 e 184, de julho de 1991 a janeiro de 1992, no qual faz um paralelo entre as mentes conturbadas de Ratus e de Harry Osborn. Este, havia relembrado que tinha sido o Segundo Duende Verde e agora precisava lidar com isso. Mas a mente frágil de Harry não consegue suportar a verdade, enquanto é atormentado pela herança de seu pai. Assim, volta a usar o uniforme do Duende Verde e ataca o Homem-Aranha (que ele lembra ser Peter Parker) para se vingar da morte do pai. Adepto de temas polêmicos, mas tratados de maneira elegante e muito bem feita, DeMatteis revela que o principal problema de Ratus é ele ter sido abusado sexualmente pelo pai. Esta história é, sem sombras de dúvidas, uma das melhores do Homem-Aranha.

A morte de Harry Osborn em “Spectacular Spider-Man 200” por DeMatteis e Buscema.

O drama de Harry Osborn continuou a ser desenvolvido pelo escritor (sempre com os desenhos de Sal Buscema) resultando na edição comemorativa de Spectacular Spider-Man 200, de 1993. Nesse número especial, com o dobro de páginas, Harry sai da cadeia e volta a atacar Peter, embora revele que não quer nenhum mal a Mary Jane. Dessa vez, Harry consegue o acesso à fórmula que deu superpoderes ao seu pai e fica mais perigoso, mas como efeito de uma superdosagem, o rapaz termina morrendo, não antes de tentar se redimir e salvar a vida de Peter, MJ e de sua esposa, Liz allen e do filho Normie.

Nas histórias seguintes, a morte de Harry traz a tona que ele era o Duende Verde para o grande público. O repórter do Clarim Diário, Ben Urich, publicaria um livro chamado A Dinastia do Mal na qual revela em uma reportagem bombástica que o falecido Norman Osborn era o Duende Verde original e que seu filho seguiu seus passos até a morte.

Um pequeno declínio

Mark Bagley manteve o estilo “mcfarlane”. Capa de “Amazing Spider-Man 359”.

Entre 1992 e 1994, o Homem-Aranha vive um período de declínio criativo. Curiosamente, após a saída de McFarlane, os roteiros de Michelinie começaram a perder força e depois da partida de Erik Larsen mais ainda. Os desenhos de Amazing foram assumidos por Mark Bagley, um grande artista, mas as histórias em que esteve envolvido são lembradas como algumas das piores coisas já escritas sobre o cabeça de teia. Destaque negativo para dois arcos em especial. O primeiro foi Maximum Carnage, uma longa história em que o alienígena simbionte dá origem a outro vilão: Carnage, uma versão vermelha e mais exagerada e sanguinaria de Venom. O roteiro encontra desculpas esfarrapadas para reunir um time contra o vilão, com o Homem-Aranha e Justiceiro, Capitão América, Deathlock etc. A história sem pé nem cabeça desagradou os leitores e mais ainda à crítica.

O segundo arco em destaque foi ainda pior. Michelinie e Bagley criaram uma história maluca em que os pais de Peter Parker reaparecem vivos. Os dois retomam uma velha história de Lee e Romita, dos anos 1960, em que Richard e Mary Parker eram espiões da CIA mortos em um acidente de avião. Mas termina “revelando” que estão vivos. Os dois reaparecem e se envolvem em grandes confusões. No fim das contas, tudo termina em Amazing Spider-Man 388, de 1994, e o Homem-Aranha descobre que tudo não passa de uma farsa levada a cabo pelo Camaleão e que seus pais são, na verdade, dois robôs assassinos (isso mesmo!). Peter também fica sabendo que o plano todo foi uma criação de Harry Osborn antes de morrer e executado pelo Camaleão.

Ilustração da capa de “Amazing Spider-Man 400” por Mark Bagley. No interior, J.M. DeMatteis mostra a morte da Tia May.

Este arco foi o último trabalho de David Micheline à frente do título, em 1994, após sete anos no comando. Com isso, ele detém o título de escritor mais longevo de Amazing Spider-Man depois de Stan Lee, que permaneceu de 1963 a 1972. O lugar do escritor no título foi ocupado por J.M. DeMatteis que foi “promovido” da Spectacular para Amazing, num trajeto raro, repetido apenas por Roger Stern dez anos antes. Entretanto, o escritor não conseguiu repetir o êxito anterior na revista. Spectacular passou ao comando de Steven Grant, ainda com Sal Buscema nos desenhos.

Em Amazing, o único marco da fase de DeMatteis e Bagley foi a edição comemorativa número 400, em que a Tia May morre após décadas de doenças.

Enquanto DeMatteis foi para Amazing, seu lugar em Spectacular foi ocupado com a volta de Tom DeFalco aos títulos do aracnídeo e na época ainda Editor-Chefe da Marvel.

Logo no início de sua temporada, Howard Mackie decidiu dar um fim à história do Rosa (Richard Fisk). Capa de “Web of Spider-Man 88” por Alex Saviuk.

Outra mudança significativa em termos criativos foi em Web of Spider-Man, onde Gerry Conway encerrou sua longa contribuição com o desenhista Alex Saviuk. O artista permaneceu, mas os roteiros passaram para Howard Mackie, a partir do número 85, de 1992, um escritor que chamava a atenção na época por sua nova versão do Motoqueiro Fantasma. Porém, Mackie permaneceu pouco mais de um ano, sendo substituído por Terry Kavanagh, em 1993. Mackie foi para a Spider-Man que havia sido criada para Todd McFarlane e estava sem uma equipe fixa há vários meses. A partir do número 45 o artista a assumiu e o título foi rebatizado para Peter Parker: Spider-Man.

Enquanto isso, em Web of Spider-Man, Saviuk continou nos desenhos até 1994, totalizando mais de 80 edições, sendo um dos recordistas em trabalhos com o Homem-Aranha. Foi substituído por Steven Butler.

Foi justamente nas páginas de Web por Kavanagh e Butler que se plantaram as ideias que levaram a um dos mais importantes eventos editoriais do Homem-Aranha, a segunda Saga do Clone, que ocupou as várias revistas do personagem durante os anos de 1995 e 1996, aumentou as vendas, irritou os fãs, produziu histórias idiotas e se transformou na mais controversa (e odiada) das fases do amigão da vizinhança e obrigou a Marvel a realizar uma série de mudanças.

A Saga do Clone

Mary Jane anuncia sua gravidez em “Spectacular Spider-Man 220”. Arte de Sal Buscema. Textos de Tom DeFalco.

Em 1995, a Marvel vivenciava um momento crucial em sua história. A fase de vendas altíssimas que havia turbinado o mercado de quadrinhos dos Estados Unidos, iniciada em 1990, sofreu um rápido declínio, que os historiadores chamam de “estouro da bolha”. Grande parte das vendas era de colecionadores que compravam mais de um exemplar da mesma edição para depois revendê-la em preços maiores no mercado informal. O mercado especulativo levou as vendas ao patamar dos milhões de unidades – algo não visto desde os anos 1940 – mas pagou seu preço, pois não era um público real. Quando a prática esgotou, as vendas caíram. E caíram muito!

Seriamente preocupada, a diretoria da Marvel promoveu uma mudança radical: acabou com o cargo de Editor-Chefe e o substituiu por um colegiado de editores formado por, entre outros, o ex-editor Tom DeFalco (responsável pelas histórias do Homem-Aranha), Bob Harras (X-Men), Ralph Machio (Vingadores) e outros; todos submetidos ao Departamento de Marketing, que se responsabilizou por criar estratégias de aumentar as vendas. O resultado foi que o esquema de crossovers foi expandido à máxima potência e a liberdade criativa foi diminuída. A Saga do Clone é fruto direto dessa política e pagou por isso.

Terry Kavanagh havia criado uma trama em que envolvia consequências da velha Saga do Clone publicada em 1975 por Gerry Conway e Ross Andru (veja Parte 02). Peter Parker era acusado de um crime e preso; então, descobria que o clone de si mesmo que julgava morto (e tinha jogado dentro de uma chaminé industrial na história original. Como ele sobreviviu? Tom DeFalco sabe) estava vivo e tinha vindo ajudá-lo. O clone havia mudado para Nova York quando soube da morte da Tia May. A partir daí, a história foi “esticada” para se transformar em um grande crossover que tomaria todas as histórias do Homem-Aranha.

Ben Reilly se torna o Aranha Escarlate.

O clone, que passara a se chamar Ben Reilly (em homenagem ao Tio Ben e ao sobrenome de solteira da Tia May) assume a identidade de Aranha Escarlate e passa a ocupar inteiramente a revista Web of Spider-Man, escrita por Todd DeZago e desenhada por Steven Butler, que após a edição 129, de 1995, passa a se chamar Web of Scarlet Spider. A nova revista durou apenas duas edições porque um exame de DNA termina mostrando que Ben Reilly era o verdadeiro “Peter Parker” e o Peter Parker que encantou gerações de leitores nos 20 anos anteriores era, na verdade, apenas um clone. O resultado enfureceu os fãs, especialmente os da velha guarda.

Com isso, J.M. Matteis saiu de Amazing e foi substituído por Tom DeFalco, de volta à revista após nove anos, assumindo a partir da edição 407, de janeiro de 1996.  Nas histórias, Mary Jane descobre que está grávida e Peter aproveita isso e o fato de que é “apenas um clone” para se afastar de Nova York e viver uma vida mais tranquila, enquanto Ben Reilly pinta os cabelos de loiro para ninguém pensar que ele é Peter Parker e se torna (volta a ser?) o Homem-Aranha, usando um uniforme ligeiramente diferente, criado por Dan Jurgens.

A nova revista “The Sensasional Spider-Man” criada especialmente para Dan Jurgens.

Jurgens tinha sido o principal escritor da famosa saga A Morte do Superman, na rival DC, e foi convidado pela Marvel para assumir uma nova revista inteiramente para si: The Sensasional Spider-Man, que substituía Web of Spider-Man (Scarlet Spider). O artista escrevia e desenhava a revista, mas permaneceu apenas por sete edições, entre os números zero e 06, de 1996, porque o plano original era de que Peter Parker seria revelado como o verdadeiro Homem-Aranha e Ben Reilly, o clone, mas a diretoria da Marvel decidiu “esticar” a história e adiar a revelação final. Sem concordar com isso, Jurgens deixou o título.

Seu lugar foi ocupado por Todd DeZago e Mike Wieringo, que permaneceriam na revista até seu cancelamento, em 1998. DeZago também escrevia Spectacular Spider-Man, ainda desenhada por Sal Buscema, que permaneceu no título até aquele momento em 1996. O desenhista completou, com isso, um recorde histórico de mais de 100 edições numa mesma revista (contando entre 1976 e 1996). Seu lugar foi ocupado pelo desenhista brasileiro Luke Ross, que apesar de inicialmente imitar a arte de Todd McFarlane, logo, encontrou seu próprio traço e fez um bom trabalho à frente do escalador de paredes.

O vilão Kaine é o segundo clone do Homem-Aranha. Clones e mais clones…

Outro desenhista recordista, Mark Bagley, também se afastou das revistas em 1996, após cinco anos e meio. Foi substituído por pouco tempo pelo ótimo Ron Garney, mas foi Steve Skroce quem se firmou em Amazing Spider-Man, embora o desenhista brasileiro Joe Bennett também tenha feito alguns números.

O que irrita os fãs em relação à Saga do Clone é que tudo foi exagerado no longo arco. Os clones surgiram de todos os lados: além de Peter e Ben Reilly, foi revelado que o vilão Kaine também era um clone do Homem-Aranha; o responsável original pelos clones, o prof. Miles Warren, o vilão Chacal, também foi clonado e, por isso, ainda estava vivo, e também tinha um segundo clone, o Carniça (vilão da fase Bill Mantlo, Al Migron e Frank Miller lá na distante Spectacular do fim dos anos 1970). O Mestre dos Robôs, o prof. Mendell Stromm – isso mesmo, aquele que criou a fórmula que deu poderes a Norman Osborn – também estava vivo, agora usando uma armadura e, pretensamente, também era um clone. O Dr. Octopus morreu e voltou dos mortos, talvez, também clonado!

“Peter Parker: Spider-Man 76” traz o fim da Saga do Clone. Arte de John Romita Jr.

Assim como a identidade secreta do Duende Macabro anos antes, a Saga do Clone se tornou uma coisa embaraçosa que precisava ser consertada rapidamente. Além disso, é preciso dizer que a crise nos quadrinhos era tão grande que a poderosa Marvel pediu concordata (uma antecipação de falência) em 1997! Por isso, terminou a era do colegiado e Bob Harras foi nomeado Editor-Chefe para coordenar a “volta por cima” da editora. O investimento foi simples: histórias melhores.

Então, ao fim de 1996, começou-se a articular-se o fim da Saga do Clone e para isso se articularam algumas mudanças. Criou-se o arco Revelações, que foi publicado seguidamente em Spectacular Spider-Man 240 por Todd DezZago e Luke Ross; Sensional Spider-Man 11 por DeZago e Mike Wieringo; Amazing Spider-Man 418 por Tom DeFalco e Steve Skroce; e termina bombasticamente em Peter Parker: Spider-Man 76 por Howard Mackie e John Romita Jr., mais uma vez de volta às histórias do Homem-Aranha, dessa vez após nove anos.

Na trama,  Mary Jane e Peter voltam a Nova York para terem seu bebê, que é uma menina e se chamará May em homenagem à tia falecida; enquanto Ben Reilly seria o padrinho. Mas Ben e Peter se envolvem em uma briga com o Mestre dos Robôs, enquanto ficamos sabendo que há uma “mente criminosa” por trás de todas as desventuras da dupla nos últimos tempos. Peter não está no hospital quando Mary Jane tem o bebê, que é sequestrado por uma enfermeira e entregue a Kaine. Ben Reilly enfrenta um inimigo que se revela ser Norman Osborn, o Duende Verde original (pai de Harry e assassino de Gwen Stacy), a mente por trás de tudo.

Duende Verde e Homem-Aranha em épica batalha nas mãos de John Romita Jr. Textos de Howard Mackie.

Norman Osborn está de volta!

Ben Reilly é morto.

Peter Parker é o verdadeiro Homem-Aranha.

Osborn mata Ben Reilly e Peter é forçado a usar o uniforme do Homem-Aranha mais uma vez, para derrotar o seu velho inimigo. Ao mesmo tempo, Osborn sequestrou todo o elenco de coadjuvantes do Homem-Aranha (J.J. Jameson, Robbie Roberton, Ben Urich, Betty Brant, Flash Thompson, Liz Allen etc.) e os prendeu numa sala do Clarim Diário. No processo, Peter descobre que Ben Reilly era o clone e ele o verdadeiro Homem-Aranha. O Duende Verde e o herói têm uma luta violenta – magnificamente desenhada por John Romita Jr. – e o vilão desaparece ao final.

Para explicar a volta de Norman Osborn dos mortos, ficou estabelecido que o Duende Verde tinha um novo poder: fator de cura. Com isso, ele não morreu empalado em Amazing Spider-Man 122, de 1973 (veja Parte 02), acordando no necrotério, colocando um mendigo no seu lugar no caixão (e ninguém notou?); mudando-se para Europa e se tornando uma grande mente criminosa dedicada a atrapalhar a vida de Peter Parker das sombras. O motivo de sua volta após cinco anos (o tempo cronológico, pois editorial foram 23 anos!) foi a morte de seu filho Harry, que o teria levado a criar toda a confusão dos clones.

Uma fase de transição

A bela arte do brasileiro Joe Bennett em “Amazing Spider-Man 434”, de 1997.

Embora a tática do “volta dos mortos” tenha sido algo banalizado nos quadrinhos desde o fim da Saga do Clone, embora trazer Norman Osborn de volta talvez não tenha sido a melhor das soluções, ela serviu para seu objetivo imediato: melhorar as histórias do Homem-Aranha. Inicia-se uma fase de transição que lida com as consequências da Saga da Clone, ou mais objetivamente, da volta de Osborn. Na verdade, os escritores e editores decidiram fazer o mínimo possível de referências àquela saga e algumas tramas ficaram inconclusas e nunca foram retomadas, como é o caso da filha de Peter e Mary Jane, May, que não ficou esclarecido se foi morta ou raptada, mas foi gentilmente “apagada” da cronologia.

Norman Osborn retorna com o nome limpo. Capa comemorativa de “Spectacular Spider-Man 250”, de 1997 por John Romita Jr. A arte interna é do brasileiro Luke Ross.

As revistas continuaram mais ou menos com as mesmas equipes de Revelações, mas focadas no fato de que Norman Osborn estava vivo e sabia a identidade de Peter. O que isso significava? Nas histórias dessa fase, Norman Osborn reaparece para as autoridades e é preso, acusado de ser o Duende Verde, mas o vilão consegue convencer todo mundo de que, na verdade, havia sido vítima de uma “conspiração” armada pelo Homem-Aranha e pelo “verdadeiro” Duende Verde. Como era inocente, o empresário havia fingindo sua morte anos atrás para fugir. Enquanto o processo anda na Justiça, em liberdade, Osborn ameaça de morte o velho amigo J. Jonah Jameson (bem como sua família) e compra o Clarim Diário, o que aterroriza seus funcionários, que sabem muito bem quem ele é. E também lança um livro de sucesso com sua versão da história, rebatendo aquilo que Ben Urich havia revelado em A Dinastia do Mal.

Em meio a essa fase um evento histórico e curioso ocorreu em termos editorais quanto ao Homem-Aranha. O escritor Roger Stern, que tinha estado na DC escrevendo as histórias do Superman, voltou à Marvel e conseguiu convencer o Editor-Chefe Bob Harras a contar a sua versão da identidade secreta do Duende Macabro. Apesar de fazer 11 anos (!) que a identidade tinha sido revelada como sendo o falecido repórter Ned Leeds, Harras concordou em publicar uma nova versão e, ainda, incluí-la dentro da cronologia padrão do universo do teioso.

Na minissérie “Hobglobin Lives”, Roger Stern conta a versão final da identidade do Duende Macabro, 11 anos depois.

Infelizmente, 11 anos era tempo demais e ninguém se importou muito com a “bombástica revelação”. Ainda assim, a minissérie em três capítulos Hobgoblin Lives é uma boa história trazendo, além de Stern nos roteiros, desenhos de George Perez e Ron Frenz. A trama tentou partir de uma constatação muito óbvia: como um vilão poderoso como o Duende Macabro, que saiu no braço com o Homem-Aranha, foi morto tão facilmente pelos agentes comuns do Estrangeiro, conforme Peter David, Alan Kupperberg e Tom Morgan mostraram em Amazing Spider-Man 289? A pergunta é feita por Mary Jane a Peter e o rapaz, após uma reflexão rápida, responde: “não podia”!

Roderick Kingsley (esq.) e seu irmão Daniel: subtrama corporativa.

O motivo disso vir à tona também foi interessante: Stern mostrava Jason Macendale, o Segundo Duende Macabro (já curado de sua versão demoníaca, mas agora numa versão cibernética), vai a julgamento e é condenado pelos crimes do Macabro original – afinal quase ninguém sabia que haviam tido dois. Após a condenação, o repórter Jacob Conover – personagem da fase de Stern que não aparecia desde então – pergunta a Macendale se era verdade que ele não era o Macabro original. Para surpresa de todos, Macendale responde que é verdade e que tinha matado o primeiro Duende Macabro e que ele era Ned Leeds, o marido de Betty Brant, que agora também era repórter do Clarim e que estava presente junto a Peter Parker cobrindo o julgamento. A revelação pública de que Ned Leeds era o Duende Macabro causa uma grande confusão, porque o repórter era famoso e sua morte tinha sido misteriosa. O Homem-Aranha se une a Betty Brant para fazer uma investigação sobre o caso, que envolve também Mary Jane e Flash Thompson (ex-caso de Betty quando ela ainda era casada com Leeds, lembram?).

O Duende Macabro original de volta. Mas por pouco tempo.

Ao mesmo tempo, se revela uma grande trama conspiratória envolvendo a compra de um leilão de ações da Indústrias Osborn, que estão meio à deriva desde a morte de Harry Osborn e cuidadas pela viúva Liz Allen. Entre os envolvidos na trama estão velhos personagens criados na época das histórias originais de Stern, como o executivo da Osborn, Donald Mecken; o empresário da Rochem George Vandergill; o corrupto Senador Martin; e Roderick Kingsley, que teve envolvimento com o Duende Macabro e, em Web of Spider-Man 29 e 30, escrita por Jim Owsley, foi revelado como o produtor das armas do vilão.

Roderick Kingsley é preso: Roger Stern conta a sua versão. Desenhos de Ron Frenz e George Perez.

Jason Macendale é morto na prisão pelo Duende Macabro original e o Homem-Aranha termina descobrindo que o vilão original é, na verdade, Roderick Kingsley e que aquele que “contracenava” com o vilão era seu irmão gêmeo Daniel Kingsley. Embora o clichê do “irmão gêmeo malvado” seja algo incômodo, de um modo geral, a versão de Stern para a história do Duende Macabro faz muito mais sentido do que Ned Leeds.

Agora, a vez das versões originais do Duende Verde e do Duende Macabro se encontrarem. Arte do brasileiro Luke Ross.

Os impactos da revelação nas histórias do Homem-Aranha foram bem pequenas, mas renderam pelo menos uma das melhores histórias do herói naqueles tempos: Globingate, publicada em Spectacular Spider-Man 259 a 261, em 1998, escrita por Roger Stern e Glenn Greenberg e desenhada por Luke Ross, que mostra o primeiro (e único) encontro de Norman Osborn e Roderick Kingsley, ou seja, o Duende Verde e o Duende Macabro, em suas versões originais. Osborn liberta Kingsley porque este teria provas de que ele seria o Duende Verde e isso arruinaria sua farsa, mas Kingsley havia perdido os diários de Osborn lá atrás em Amazing Spider-Man 251, de 1984. Assim, após uma briga, que envolveu o Homem-Aranha no meio, é claro, Kingsley foge do país e vai se refugiar no Caribe, não aparecendo mais desde então.

Este arco também introduziu um novo Duende Verde, que é chamado de “jovem” por Osborn. Seria Harry?

Um leve Reboot

O arco “Capítulo Final” traz o “decisivo” conflito com o Duende Verde, em um visual bizarro. Capa de “Spectacular Spider-Man 263” por John Byrne.

Embora as histórias tenham melhorado desde o fim da Saga do Clone, as vendas ainda não tinham atingido os patamares que a Marvel desejava, então, foi planejado um reboot do Homem-Aranha, uma espécie de reinício. Isso envolvia criar uma saga chamada The Final Chapter que encerraria parte da história do personagem e abriria espaço para uma “nova”. O principal intuito era zerar a numeração de todas as revistas do Aranha para tentar atrair novos leitores. Isso resultou no fim de duas revistas do herói: The Spectacular Spider-Man foi cancelada em seu número 263, em fins de 1998, após 22 anos de publicação; bem como The Sensasional Spider-Man em seu número 33.

Norman Osborn é derrotado pela primeira vez desde que retornou, mas foge da cadeia antes de ter a identidade comprometida. Arte de John Romita Jr.

Em Amazing e Peter Parker: Spider-Man se delineou o arco Capítulo Final, escrito por Howard Mackie e com desenhos de John Romita Jr. (de volta outra vez) e John Byrne, respectivamente. Byrne tinha sido uma das maiores estrelas dos quadrinhos dos anos 1980 (leia um post sobre a carreira dele aqui), mas apesar de ter realizado uma temporada em Marvel Team-Up (junto ao escritor Chris Claremont) nos anos 1970 e feito várias capas para Amazing ao longo dos anos, nunca tinha trabalhado com o Homem-Aranha dentro de seus títulos tradicionais. Foi muito bom ver o velho Byrne e sua bela arte trabalhando o cotidiano do escalador de paredes.

Em Capítulo Final, Norman Osborn arma um plano para se livrar de Peter Parker de vez. No meio do conflito, o Homem-Aranha fica sabendo que sua Tia May está viva e que tinha sido mantida em cativeiro por Osborn durante esse tempo todo. Quem morrera em Amazing Spider-Man 400 havia sido uma atriz (!) que substituiu a idosa gentil – reminescências das ideias bizarras da Saga do Clone? Um processo místico deixa Osborn totalmente maluco e um confronto selvagem entre o Aranha e o Duende resulta na destruição do prédio do Clarim Diário, da quase morte do herói e da prisão de Osborn.

Em “Chapter One” John Byrne reconta os primeiros tempos do Homem-Aranha: versão renegada.

Ao mesmo tempo, é publicada uma maxissérie em 12 capítulos chamada oportunamente Chapter One, na qual John Byrne (escrevendo e desenhando) reconta as 20 primeiras edições de Amazing Spider-Man, originalmente produzidas por Stan Lee e Steve Ditko, mas agora repaginadas para os tempos modernos. No geral, a obra de Byrne é bastante fiel ao material original (talvez até demais), mas inclui Norman Osborn como um agente das sombras manipulando a vida do Homem-Aranha sem ele saber. O arco é rejeitado pelos fãs por causa de algumas ideias estranhas, como o fato da existência de um parentesco entre Osborn e o Homem-Areia (simplesmente porque os dois têm o mesmo corte cabelo, pois ambos foram criados por Ditko); um novo visual para Elektro; e o fato de que o acidente com a aranha radioativa que deu origem aos poderes de Peter passa a ser o mesmo acidente que transforma o Dr. Octopus em um louco.

Peter Parker abandona a identidade do Homem-Aranha por pouco tempo. Texto de Howard Mackie e arte de John Byrne.

Em janeiro de 1999, as duas revistas restantes do Aranha são zeradas e Amazing e Peter Parker: Spider-Man voltam ao número 01, começando uma nova fase, nas mãos de Mackie, Romita Jr. e Byrne. A Amazing original é encerrada no número 441. No início da nova fase, vemos Peter tendo abandonado a identidade de Homem-Aranha, por quase ter morrido no conflito com o Duende Verde; trabalhando num laboratório de ciências e vivendo em um novo apartamento com Mary Jane e a Tia May (de penteado novo). Mas um novo Homem-Aranha está nas ruas combatendo o crime. Peter vai atrás e descobre que o novo herói é na verdade uma mulher, que se torna uma nova Mulher-Aranha, e Peter termina voltando à sua velha identidade.

Essa nova fase durou 29 edições de Amazing, com algumas boas histórias, mas alguns eventos estranhos. Primeiramente, o Homem-Areia se tornou um criminoso de novo (após mais de uma década “do lado do bem”, tendo inclusive atuado como um membro reserva dos Vingadores); depois, o novo visual do Elektro foi incorporado às histórias temporariamente; o novo Duende Verde foi revelado como um ser artificial, criado por meio de engenharia genética (!?); e Mary Jane foi aparentemente morta em um acidente de avião.

Na época, na Marvel, começava a circular a sensação incômoda do fato do Homem-Aranha ser um homem casado e a maneira como isso, de algum modo, atrapalharia as histórias. Por isso, Howard Mackie afastou Mary Jane da maneira que pôde. Ninguém acreditou que a modelo ruiva havia mesmo morrido, mas quando o Homem-Aranha a encontra após meses desaparecida, ela estranhamente decide se separar de Peter.

Um grande Reboot

O Homem-Aranha atacado por Morlun. Arte de John Romita Jr.

Durante o comando de Bob Harras como Editor-Chefe da Marvel, entre 1997 e 2000, foi criado o selo Marvel Knights, dedicado a histórias de cunho mais adulto e sério. A coordenação do selo coube ao desenhista Joe Quesada e a empreitada foi um sucesso, devolvendo uma áurea cult a muitos personagens, como o Demolidor escritor por Kevin Smith (e desenhado por Quesada) ou o Justiceiro de Garth Ennis e Steve Dilllon. A sensação foi tanta que Quesada emergiu como o nome natural para se tornar o novo Editor-Chefe da editora, numa gestão que duraria 10 anos até 2010.

Uma das grandes atenções de Quesada foi quanto ao Homem-Aranha. O editor era do time que pensava que o casamento só atrapalhou suas histórias e durante anos falou publicamente que, se pudesse, removeria esse evento da cronologia do personagem, algo que realmente faria. Para isso, engendrou uma grande mudança no status quo do escalador de paredes, o que envolveu uma completa mudança de direcionamento.

Ezekiel, outro “homem-aranha”. Arte de John Romita Jr.

Assim, em 2001, o escritor J. M. Straczynski – vindo da TV onde criou Babylon 5 – assumiu a revista Amazing Spider-Man a partir do número 30 com a missão de causar grandes mudanças. E neste quesito, ele não decepcionou. Trabalhando ao lado do desenhista John Romita Jr., o autor criou, logo de imediato, uma trama em que uma espécie de vampiro energético chamado Morlun caça impediosamente o Homem-Aranha. Ao longo da ação, Peter Parker desvenda uma série de segredos acerca de sua origem, como o fato de que a picada da aranha radioativa foi apenas o agente de um processo místico antiquíssimo que faz com que exista uma linhagem de homens-aranha desde os primórdios do tempo. A aranha seria uma espécie de totem místico e sua missão seria combater outros totens místicos, o que explicaria o fato da maioria de seus inimigos estar relacionado ao nome de animais, porque eles também seriam agentes totêmicos, mesmo sem saber, como Abutre, Dr. Octopus (polvo), Rhino etc. Entendeu? É, eu também não.

O Homem-Aranha encontra outro “homem-aranha totêmico” na figura de Ezekiel e descobre que a única maneira de deter Morlun é sua própria morte, porque ele existe para o equilíbrio. O herói injeta em si um veneno radioativo e deixa-se ser pego por Morlun que, aparentemente, morre ao “sugá-lo”. (Ele voltaria depois). Muito debilitado, Peter volta para casa e tenta descansar. Enquanto dorme, sua Tia May entra no apartamento e vê o sobrinho todo quebrado, ensanguentado e dormindo com a roupa do Homem-Aranha em frangalhos. Isso mesmo: Tia May descobre sua identidade secreta.

Peter Parker se torna professor.

Segue-se uma edição inteira em que Peter e May têm uma longa conversa e a tia critica severamente o sobrinho por nunca ter contado o segredo. Ele defende-se dizendo que queria protegê-la e poupá-la, mas a velha senhora informa ser mais forte do que o sobrinho pensava. A partir de então, May se torna uma das maiores defensoras do aracnídeo. Uma curiosidade: em uma passagem humorística, May diz que chegou a pensar que o sobrinho fosse gay, porque era visível que havia um “segredo” dentro do “armário”. É, a Tia May é uma mulher moderna mesmo!

Outra grande mudança de status quo: Peter assume seu lado “ciências” e vai trabalhar com professor na mesma escola onde estudou, a Middletown High School, a mesma onde Stan Lee e Steve Ditko situaram suas primeiras histórias, mas agora, uma típica escola de periferia, com paredes grafitadas, gangues juvenis, drogas, violência, bullying e minorias étnicas.

O Homem-Aranha se torna um vingador em “New Avengers”, de 2005. Arte de David Finch.

Mas isso foi apenas o começo de um turbilhão de mudanças impostas pela dupla Quesada e Straczynski. Mais a seguir.

Ao mesmo tempo, quando a Marvel reformulou os Vingadores, na virada de 2004 para 2005, o escritor Brian Michael Bendis criou os Novos Vingadores, uma equipe que reunia membros tradicionais da equipe, como Capitão América e Homem de Ferro, juntos com outros que nunca foram membros oficiais, como Homem-Aranha, Wolverine, Luke Cage e a Mulher-Aranha original. A revista New Avengers se tornou rapidamente o maior sucesso da Marvel, desenhada por David Finch.

Por volta dessa época, a revista Amazing Spider-Man teve sua numeração revertida para o sistema antigo, de modo que o número 58 equivalia ao 499. Assim, em dezembro de 2003, a Marvel comemorou o lançamento de Amazing Spider-Man 500, com várias capas, a mais famosas por Scott Campbell (o herói com MJ nos braços cercado por seus inimigos clássicos). A história em si, envolvia uma viagem temporal na qual Peter podia ver o seu início como o Homem-Aranha e o seu fim, também, quando já velho é assassinado pela polícia.

Painel de “Amazing Spider-Man 500” conta a trajetória do herói. Arte de John Romita Jr.

No final, o herói ganha de presente do Dr. Estranho um encontro espiritual com o Tio Ben por cinco minutos. Os desenhos foram de John Romita Jr. O “filho do mestre” saiu  da revista e foi substituído pelo desenhista brasileiro Mike Deodato Jr. como o titular da revista Amazing.

Um “segredinho” entre Norman Osborn e Gwen Stacy. Textos de Straczynski e arte de Mike Deodato Jr.

Nunca o Homem-Aranha viveu uma fase tão polêmica! Entre as mudanças, uma das mais chocantes foi a revisão da personalidade da falecida Gwen Stacy, a mais querida “namoradinha” do personagem. Numa história revisionista, chamada Pecados do Passado, escrita por Straczynki e desenhada pelo brasileiro Mike Deodato Jr., publicada em Amazing Spider-Man 509 a 514, Peter Parker fica sabendo que, quando terminou o namoro com Gwen e ela se mudou para Londres (onde tinha parentes) – fato que ocorreu nas histórias de 1971 escritas por Stan Lee e desenhadas por John Romita (o pai) e Gil Kane – a garota teria sido seduzida por Norman Osborn, transado com ele, engravidado e dado a luz a um casal de gêmeos, Gabriel e Sarah. As crianças teriam ficado sob a guarda dos parentes e Gwen voltou aos EUA para reencontrar Peter. Mary Jane sabia do fato e teria escondido isso do marido desde então. Mas, no presente, as “crianças” já eram adultas, porque os superpoderes de Osborn as afetaram com crescimento acelerado e outras habilidades especiais.

Para piorar, Sarah Stacy é a cara da mãe. Arte de Deodato Jr.

Assim, a dupla ataca o Homem-Aranha. Sarah se redime, mas Gabriel se torna o Duende Cinza. E, segundo uma piada corrente entre os fãs, Gwen Stacy se tornou “a maior vadia dos quadrinhos”. Straczynski justificou-se afirmando estar criando um motivo para que o Duende Verde matasse Gwen na clássica história de 1973. Nem é preciso dizer que esse arco de histórias revoltou os leitores veteranos.

Peter renasce (de uma aranha) com novos poderes.

Num outro arco de histórias, Straczynski decidiu incorporar os elementos dos filmes do Homem-Aranha que faziam sucesso nos cinemas, fazendo Peter renascer de uma aranha gigante (isso mesmo!) e passar a ter alguns novos poderes, dentre eles, a habilidade de gerar a sua própria teia, sem necessitar mais dos lançadores mecânicos que usava desde o início da carreira.

Em outra decisão polêmica da Marvel, durante o arco de histórias Guerra Civil, uma minissérie dos Vingadores, Peter Parker anuncia ao mundo inteiro que é o Homem-Aranha, ou seja, tem sua identidade secreta revelada.

A minissérie “Guerra Civil” dos Novos Vingadores teria grande impacto na vida de Peter Parker.

Em Guerra Civil, escrita por Mark Millar (de O Procurado e Kick-Ass) e desenhada por Steve McNiven, os heróis de terceira categoria Novos Guerreiros terminam causando sem querer uma explosão que mata 600 pessoas, a maioria crianças. Daí, o Secretário de Defesa dos EUA, Tony Stark (o Homem de Ferro) em pessoa, é obrigado a defender o projeto de Ato de Registro de Superhumanos, na qual os superseres são obrigados a se inscrever, relvelar nomes e endereços ao Governo e serem treinados em suas habilidades. Parte da comunidade superhumana apoia, mas outra facção, liderada pelo Capitão América, entende isso como uma afronta aos direitos civis e vai contra. Os “a favor” são obrigados a perseguir os “contra”, porque estes se tornam foras da lei.

Peter Parker revela ao mundo que é o Homem-Aranha em “Guerra Civil”. Texto de Mark Millar, arte de Steve McNiven.

Peter Parker fica do lado de Tony Stark e apoia o registro. Ele revela sua identidade, mas é tão perseguido que passa a usar uma armadura produzida pelo inventor. Porém, durante os conflitos, o Aranha começa a se questionar das decisões éticas de Stark e seu grupo, que envolvem criar uma prisão em outra dimensão (cortesia de Reed Richards, do Quarteto Fantástico) ou tentar clonar Thor (cortesia de Hank Pym, dos Vingadores), e por fim, termina mudando de lado e se juntando ao Capitão América, Wolverine e outros.

A armadura estilo Homem de Ferro. Arte de Ron Garney.

Como resultado, além de virar um foragido da Lei e todos saberem seu segredo, Peter vê o Rei do Crime contratar um atirador de elite para matar a Tia May e a velhinha é atingida, ficando à beira da morte. Peter fica de luto e volta a usar o uniforme negro, enquanto caça os reponsáveis pela situação de sua tia, mas como ela está à beira da morte, não tem mais salvação.

O poster de “One More Day” já anunciava. Arte de Joe Quesada.

Entra em jogo a cartada final de Quesada e Straczynski: aproveitam a situação para criar uma desculpa para apagar o casamento de Peter e Mary Jane da cronologia do personagem. Vem então Um Dia a Mais ou One More Day, uma trama maluca em que Mefisto (a versão do Diabo no Universo Marvel. Lembram dele?) oferece a Peter a oportunidade de salvar sua tia e, de brinde, salvar sua identidade secreta. Mas como em todos os contratos com o demônio há um preço: o amor por Mary Jane. O casal conversa e chega à conclusão que isso é o melhor a fazer, então, Mefisto usa seu poder para realizar o que prometeu. Isso ocorre principalmente em Amazing Spider-Man 544 e 545, de novembro e dezembro de 2007, escritas por Straczynksi e desenhadas por Quesada.

Mefisto pede o casamento em troca. Texto de Straczynski (oficialmente) e arte de Quesada.

Curiosamente, Um Dia a Mais também representou o fim da longa fase de Straczynski à frente do Homem-Aranha após mais de seis anos e foi da pior maneira possível. Além da polêmica trama, que irritou mais ainda os leitores antigos, o escritor ainda iniciou uma briga pública com o Editor-Chefe Joe Quesada, acusando-o de modificar o final de sua história. Chamuscado na Marvel, Straczynski ainda desenvolveu um arco de 12 partes com a volta de Thor (fase que inspirou o filme), mas saiu da editora depois disso e foi para DC fazer Superman e Mulher-Maravilha.

O início de “Brand New Day” em “Amazing Spider-Man 546”. Capa variante por Steve McNiven.

A Marvel aproveitou o reboot do Homem-Aranha – ou seja o fim de seu casamento e o apagamento cronológico da identidade pública – para promover uma completa mudança no universo ficional do cabeça de teia, num arco de histórias chamado Brand New Day ou Um Novo Dia, que começou em Amazinng Spider-Man 546. Agora, Peter Parker era novamente solteiro e vivia divindindo um apartamento em Nova York com um amigo policial chamado Vin Gonzales. Mary Jane estava “sumida do mapa”. Nem May, nem Norman Osborn, nem ninguém mais sabe que ele é o Homem-Aranha. E não pára por aí: Harry Osborn está novamente vivo.

Não fica claro até que ponto Peter sabe das mudanças, mas fica evidente que ele percebe que algumas coisas mudaram, particularmente no que se refere à sua identidade secreta. Mas a dúvida permanece quanto ao fato dele saber se já tinha sido casado com Mary Jane.

Norman Osborn se torna o queridinho da nação em “Thunderbolts” por Warren Ellis e Mike Deodato Jr. Note a semelhança com Tommy Lee Jones.

Várias mudanças menores também ocorrem: J.J. Jameson perde o controle do Clarim Diário para um empresário inescrupuloso, que muda seu nome para CD. A maior parte do staff do jornal – à exceção de Betty Brant – se demite e funda um novo períodico chamado Linha de Frente comandado por Ben Urich, para o qual Peter também passa a trabalhar. Harry vive como um adicto em recuperação e administra o Grão de Café, o velho café que ele, Peter, Gwen e MJ frequentavam nas histórias dos anos 1960. E também vive à sombra do pai, já que Norman Osborn emerge como um dos homens mais poderosos dos EUA após a Guerra Civil, já que passa a comandar os Thunderbolts, um projeto do Governo que usa criminosos condenados em missões suicidas. A nova revista Thunderbolts, por Warren Ellis e o desenhista brasileiro Mike Deodato Jr. é um dos maiores sucessos da Marvel na época.

E Norman Osborn se torna ainda mais poderoso em seguida, quando os alienígenas0 Skrulls invadem a Terra na saga Invasão Secreta, dos Vingadores, por Brian Michael Bendis e Leinil Francis Yu, e Stark é considerado culpado pelo incidente ou pelo planeta não estar bem preparado para defender-se. Assim, Stark cai, a SHIELD é extinta e substituída pelo MARTELO que é comandado justamente por Osborn, que se torna a maior autoridade do país depois do presidente. E, claro, o vilão usa seu poder para se vingar sistematicamente do Homem-Aranha e de seus outros inimigos, como os Novos Vingadores, ainda fugitivos da Lei.

O Homem-Aranha enfrenta os Thunderbolts de Norman Osborn pela primeira vez. Ilustração da capa de ‘Amazing Spider-Man 569″ por John Romita Jr.

De volta às histórias do Homem-Aranha, as revistas The Sensasional Spider-Man e Friendly Neighborhood Spider-Man foram canceladas, nas edições 41 e 24, respectivamentea, e Amazing Spider-Man se tornou o único título a trazer histórias solo do Homem-Aranha dentro de sua continuidade regular, virando, então, uma revista com três edições mensais.

Para dar conta do recado, um verdadeiro time de escritores e desenhistas passou ao comando da revista, se alternando em arcos seguidos: a equipe de roteiristas é formada por Dan Slott, Bob Gale, Marc Guggenheim, Fred Van Lente e Zeb Wells. Já os desenhistas eram Chris Bachalo, Phil Jimenez, Mike McKone, John Romita Jr. e Marcos Martin. Algum tempo depois, outros escritores passaram a fazer algumas contribuições, como o veterano escritor Roger Stern (de volta outra vez) e o desenhista Barry Kitson, famoso por seu trabalho na DC nos anos 1990. A maior periodicidade logo disparou a numeração da revista, que chegou à edição 600 em 2009.

Quanto ao conteúdo, muito embora os leitores – especialmente os mais antigos – tenham reclamado das mudanças e da maneira como foram realizadas, todos concordam que a qualidade da revista melhorou muito, com histórias mais concisas, autocentradas e resgatando o velho humor do personagem, tão caro à fase de Stan Lee no passado. Novos inimigos, novos coadjuvantes e novas situações – Osborn no poder – também foram campo fértil para boas histórias e Dan Slott & Cia. O resultado foi claro: de imediato após a mudança, Amazing voltou a ser a revista de maior sucesso da Marvel, competindo mês a mês com New Avengers, também estrelada pelo amigão da vizinhança.

Há dois arcos de destaque nesse período que são realmente histórias muito boas. O primeiro é Novas formas de morrer, publicado entre Amazing Spider-Man 568 e 573, escrito por Dan Slott e desenhado por John Romita Jr. É o primeiro confronto entre o Homem-Aranha e Norman Osborn e os seus Thunderbolts (que incluem o novo Venom [o ex-Escorpião] e o Mercenário, arquiinimigo do Demolidor), bem como as consequências disso para a vida particular de Peter Parker, especialmente para Harry Osborn.

Ameaça, um novo vilão com ligações com Osborn. Arte de John Romita Jr.

O outro é o arco chamado Assassinato de um personagem, publicado em Amazing Spider-Man 584 a 587, escrito por Marc Guggenheim e também desenhado por John Romita Jr., em que o Homem-Aranha combate o novo vilão Ameaça até descobrir a identidade secreta do criminoso. O mistério em torno da identidade do Ameaça (que vinha se arrastando desde o início de Um Novo Dia) e o fato dele usar os equipamentos do Duende Verde prestam uma óbvia homenagem às histórias originais do Duende Macabro escritas por Roger Stern nos anos 1980. Porém, o arco passa longe da paródia e traz uma daquelas histórias simples, mas eficazes. O fato de trazer o mesmo desenhista da homenageada, John Romita Jr., ajuda a dar crédito.

Por fim, há uma terceira história muito boa dessa fase: aquela em que o Homem-Aranha se une aos Novos Vingadores para dar um golpe final em Norman Osborn e expor o líder do MARTELO como um criminoso antiético, que foi publicada na série de especiais chamada Norman Osborn: A Lista, com cada edição dedicada a um personagem diferente, como membros dos Novos Vingadores (Ronin), X-Men (Namor e Ciclope) e o Justiceiro. O capítulo do Aranha foi escrito por Dan Slott e desenhado por Adam Kubert.

O novo Duende Macabro e um dos uniformes reluzentes do Homem-Aranha. Arte de Humberto Ramos.

Em janeiro de 2011, a partir de  Amazing Spider-Man 648, a revista passou a ser publicada “apenas” duas vezes ao mês, mantendo Dan Slott como o escritor fixo. O autor vem fazendo vários arcos, como Big Times, desenhado pelo mexicano Humberto Ramos, que traz um novo Duende Macabro na figura de Phil Urich, sobrinho de Ben Urich, que passa a agir como mercenário para o Rei do Crime. Nesse arco, o Homem-Aranha usa vários uniformes diferentes, de cores reluzentes.

Atualmente, corre a saga Spider Island, onde todos os habitantes de Manhattan ganham poderes idênticos aos do Homem-Aranha.

Para o universo Ultimate, Mark Bagley criou um visual mais cartunesto para o Homem-Aranha.

Enquanto isso, na sala ao lado…

Este post foi sobre a cronologia oficial do Homem-Aranha, mas não podíamos deixar de pelo menos citar que, desde 2000, há uma versão paralela do herói no Universo Ultimate da Marvel. Este universo foi criado para contar histórias mais modernas dos velhos personagens, sem o peso da cronologia. Rendeu alguns bons momentos, como The Ultimates o arco de histórias dos Vingadores, com uma versão mais durona, cínica e realista da equipe e que é a principal influência para o filme que virá em 2012.

A estreia do Universo Ultimate se deu justamente com o Homem-Aranha, por meio do escritor Brian Michael Bendis (na época, um novato na Marvel) e o veterano desenhista do personagem Mark Bagley. Primeiramente, a dupla transformou as oito páginas do conto de Stan Lee e Steve Ditko sobre a origem do personagem em um arco de oito capítulos e 180 páginas, criando um novo universo com um Peter Parker mais jovem, no colegial, trabalhando como web designer (e não fotógrafo), já tendo as teias embutidas em seu corpo (e não artificiais), sendo vizinho de Mary Jane Watson desde a infância e tendo o acidente com a aranha (não mais radioativa, mas) modificada geneticamente na Oscorp, ou seja, por meio de experimentos comandados por Norman Osborn. Além disso, May e Ben Parker estão mais modernos, inclusive com ele tendo morado em um acampamento hippie na juventude (!) e usando rabo de cavalo (!).

O novo Homem-Aranha Ultimate…

Mas a essência do personagem era a mesma e Bendis e Bagley realmente contaram boas histórias, apesar de algumas decisões estranhas, como transformar o Duende Verde em um monstro no estilo do Hulk. A revista fez bastante sucesso em seus primeiros anos, mas depois decaiu. Ainda assim, Bendis e Bagley bateram o recorde de 100 edições ininterruptas à frente de The Ultimate Spider-Man. Isso deve servir para tornar Bagley o mais longevo desenhista do personagem em todos os tempos, pois soma-se aos mais de seis anos em que desenhou Amazing Spider-Man nos anos 1990.

…é Miles Morales, negro e latino.

Para recuperar os bons tempos, Bendis, que prossegue escrevendo as histórias há 11 anos, causou uma grande reformulação após o arco Ultimatum que resultou na morte de Peter Parker e sua substituição por Miles Morales, que é afrodescendente e latino. Esse evento chegou até ser divulgado na imprensa mundial com destaque.

* texto do blog HqRock

comentários
  1. helinux disse:

    eu não sei de nada e nada sei!!!!essa é a verdade!!!!quanta informação boa!!!!confesso que eu não sabia de muita coisa….e vejo que aqui é uma verdadeira enciclopédia virtual spider mesmo!!!!!legal!!!!

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