Snatcher – uma aventura cyberpunk direto da mente de Hideo Kojima

Publicado: 10/04/2012 por Márcio Alexsandro Pacheco em Análises, Sega CD
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Vamos agora analisar um dos melhores games que o Sega CD já teve e um dos mais lendários da historia dos videogames: Snatcher. Produzido pela Konami, foi lançado para o console da Sega em 1994, e apesar de não vender horrores (o Sega CD já estava em fim de carreira) o game fez grande sucesso entre os fãs, sendo cultuado até os dias de hoje.

Porém Snatcher teve sua grande estreia em 1988 nos computadores japoneses PC88 e no saudoso MSX. O game foi criado por Hideo Kojima, antes de sua obsessão pela sua outra consagrada obra: Metal Gear Solid. Porém essas primeiras versões não possuiam vozes, e muitas cenas que ainda não existiam. O Ato 3 por exemplo, só chegou a aparecer primeiramente no PCE. No MSX o jogo praticamente não tinha final, ficava tudo no ar. Kojima havia dito na época que a Konami estava apressando o lançamento do jogo e não deu tempo de colocar este ato no game, apesar dele já estar em desenvolvimento.

Snatcher teve no total seis diferentes versões. As já citadas PC88 e MSX, também teve uma versão para o PCE, para o Sega CD e mais tarde para o Saturn e Playstation. Porém de todas elas, a versão do Sega CD é tida como a melhor entre os fãs. Foi a única versão a ser feita especialmente para o mercado americano (textos e diálogos todos em inglês – nunca foi lançado oficialmente no Japão), é bem parecido com a versão do PCE, mas possui algumas melhorias como novas cenas e mais diálogos e textos, além de não ser tão censurado como as versões de Saturn e Playstation.

O game tinha um estilo bem diferente da maioria. Baseado no gênero sci-fi conhecido como ciberpunk (alta tecnologia misturado com elementos marginalizados) tem muitas influências de filmes consagrados como Blade Runner e O Exterminador do Futuro. Também classificado como Adventure ou ainda “Digital Comic”, permite que o jogador chegue ao final do game com maior ou menor dificuldade, de acordo com as opções que escolher durante o jogo. É como se o jogador escolhesse o roteiro do game, com um objetivo único, mas com vários caminhos que levam a ele.

Existem outros jogos do gênero para o Sega CD, como Rise of the Dragon e Shadowrun, mas nenhum com a genialidade de Kojima. Snatcher pode não ter lá uma grande jogabilidade, mas seu enredo extremamente criativo, complexo e com algumas pitadas de diversão, é mais do que suficiente para segurar o gamer na frente da telinha até fechar o jogo.

Ano 2047

Neo Kobe City – um lugar de loucura e decadência

Tudo começou em 1996, ano em que 50% da população humana morreu no evento conhecido como “Catástrofe”, por causa de uma arma biológica chamada “Lucifer Alpha” que foi liberada na atmosfera. Supostamente, uma explosão em um laboratório ultra-secreto na Rússia foi a causa da disseminação do vírus letal. Dez anos depois o vírus Lúcifer-Alpha sofreu uma mutação passando para uma forma não-letal.

 
Neo Kobe Times – notícias fresquinhas sobre a descoberta do primeiro Snatcher

Cinquenta anos depois, em 2044, seria descoberto o primeiro cibernético em forma humana, totalmente descontrolado e perigoso. Logo após, vários destes seres cibernéticos foram aparecendo, escondidos sob a forma humana e muitas vezes no lugar de importantes líderes mundiais. Essas ameaças robóticas foram batizadas de Snatchers e tinham a capacidade de imitar perfeitamente os humanos em todos os aspectos, mesmo suando ou sangrando. Os Snatchers matavam os humanos para assumirem os seus lugares. Ninguém sabe de onde eles vieram ou quais são os seus propósitos. A única coisa que a humanidade sabe é que ninguém mais está seguro e ninguém pode ser confiável.

2047, o mundo mudou completamente desde o surgimento dos Snatchers. As pessoas desconfiam de qualquer um e uma verdadeira “caça às bruxas” começou, com vários assassinatos e genocídios, geralmente de pessoas que eram confundidas por serem Snatchers.

 estes são os Snatchers… muito cuidado com eles

A cidade com o maior índice de surgimento de Snatchers é a cidade de Neo-Kobe, localizada no Japão. Foi lá que se formou uma unidade para combater os Snatchers, a JUNKER – Japanese Undercover Neuro Kinetic Elinitation Ranger.

 
Gillian falando para Jamie que vai fazer parte da Junker – ela não gostou muito

Você encarna o papel de Gilliam Seed, um novato na Junker que sofre de amnésia. Gilliam e sua namorada Jamie foram encontrados no local onde o primeiro Snatcher apareceu, porém ambos não se recordam de nada.

E é aqui que você começa o jogo. Você logo recebe sua primeira missão. Um dos Junkers desapareceu em campo. Você deve ir até o local onde ele fez sua útima chamada e descobrir o que aconteceu. Apenas a ponta do iceberg para a complexa e envolvente história que irá se desenrolar no decorrer do game.

 esse já era, virou comida de vermes

Gráficos

Snatcher tem gráficos (animações) muito legais e bem feitas. Cenários sombrios e futurísticos, muito sangue, violência e mulher bonita. Não é a toa que, quando foi lançado, o game foi classificado como “T” (teen – para maiores de 13 anos). Para começar, Gilliam Seed é praticamente o personagem de Harrison Ford em Blade Runner, muitas cenas do game parecem ter sido tiradas do filme. Os Snatcher são os próprios Exterminadores do Futuro. O caçador de recompensas, Randam Hajile, lembra muito o papel de Sting como o Harkonnen do filme Duna. O próprio game faz referências aos filmes, como quando Gillian vai investigar uma banheira e Metal Gear pergunta se ele está procurando cobras (no filme Blade Runner o personagem de Harrison Ford encontra uma pele de cobra dentro de uma banheira).

  

cadáveres por todo o lado… nem os cachorros os Snatchers perdoam… malditos!!!

Mas não se preocupem com essa “pseudo” falta de imaginação do senhor Kojima. Estas referências (e muitas outras) estão ali mais para homenagear essas consagradas obras, já que Snatcher tem um roteiro bem mais elaborado e complexo que Blade Runner, por exemplo. Se fizessem um filme de Snatcher, com certeza seria um blockbuster.

As animações são muito bem desenhadas, com um bom uso de cores (foi usado um truque para aumentar as cores do Mega Drive) cada personagem tem seu estilo e características próprias. Há muitos detalhes nos cenários, como fotos, propagandas, telefones e outros tipos de informações que podem passar despercebidos. Preste atenção em tudo. Quando há diálogos entre os personagens, diferentes avatares de quem está falando aparece, para mostrar a feição de cada um deles, seja em um momento de tensão, de humor, triste, etc.

   

caras e caretas que Gillian faz durante o jogo

Algumas mudanças famosas ocorrem da versão japonesa do PCE para a americana do Sega CD, justamente por causa do aspecto cultural. A personagem Katrina, por exemplo, tem 14 anos na versão do PCE e há uma cena onde Gillian a vê pelada tomando banho. Na versão americana ela tem 18 anos, para que Gillian não se passasse por pedófilo, já que ele pode dar algumas cantadas nela. Piadinhas no texto também sofreram adaptações como “mostrar seus documentos” e “examinar seios”, entre outras coisinhas como o seio de uma Snatcher fora da toalha. E parece ainda que nas versões mais antigas, para PC e MSX, Gillian tinha a opção de …. huuummm… cheirar a lingerie da mulherada… tinha que ser coisa de japonês né….

Veja abaixo alguns dos personagens do game:

Gillian Seed: Personagem principal do game. Sofre de amnésia devido a uma suspensão criogênica por muitos anos. A única coisa que se lembra é da palavra “Snatcher”. Para tentar recuperar sua memória, se junta ao Junker. Ótimo detetive e atirador é também mulherengo e não perde uma oportunidade de passar uma cantada em qualquer gata.

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Metal Gear Mk II: Robozinho de múltiplas funções e fiel escudeiro de Gillian. Metal Gear é designado para ser parceiro de Gillian logo que ele chega na HQ da Junker. Ele não possui armas, mas serve como um ótimo banco de dados ambulante, video-phone, guarda os cacarecos que você encontra pelo caminho, salva o seu jogo e ainda faz comentários sarcásticos sobre tudo que Gillian faz.

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Jamie Seed: É a bela mulher de Gillian, que também perdeu a memória devido a criogenia. Como ambos não se lembram de nada, eles possuem uma relação mais de amizade e namorados, tentando conhecer melhor um ao outro. Trabalha como assistente em uma clínica médica.

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Mika: Esta bela japinha é a secretária do Junker. Será o primeiro rosto que você vai encontrar quando entrar no HQ da Junker e ela sempre te passará informações importantes sobre a sua missão, os Snatchers e outros personagens.

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Katrina: Filha do veterano Junker Jean Jack Gibson, que foi assassinado por Snatchers. Ela terá papel importante para que Gillian prossiga com as investigações que seu pai estava fazendo sobre os Snatchers.

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Benson Cunningham: Este é o “Big Boss” (como Mika o chama, em referência ao game Metal Gear) da Junker. O cara com quem você vai reportar suas missões e o andamento de suas investigações.

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Randam Hajile: Caçador de recompensas e pouco se sabe sobre ele. Pode ser amigo ou inimigo. Está envolvido com os Snatchers.

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Harry: Técnico da Junker. Ele que cuida do armamento e suporte técnico de robôs, computadores e outros aparelhos.

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Metal Gear faz mais do que ficar te aporrinhando…

ele analisa objetos nas cenas do crime, por exemplo

Música

A trilha sonora conta com alguns temas orquestrads, mesclados com batidas eletrônicas ou simplesmente mais rock ‘n roll, mas uma coisa é certa, ela é perfeita! Assim como em um filme, ela vai mudar constantemente para te deixar no clima certo dependendo das cenas que você está vendo. Há músicas para todos os gostos, para os momentos mais calmos e românticos para as cenas de ação dramáticas/tensão e de pura adrenalina.

Mas além da bela trilha sonora, temos uma grata surpresa, ainda mais para um game americano. As dublagens, que estão realmente muito boas! Parece mentira, mas Snatcher possui dublagens bem feitas e convincentes, bem diferente da maioria dos games dublados daquela época. Os textos são bem feitos e os atores interpretam bem cada personagem em suas devidas situações, algumas delas cheia de piadinhas adultas, como quando Gillian liga para um sex-fone. Sente só o drama:

Operadora: Olá. Sou a Cristy. Qual seu nome, querido?

Gillian: Err… huumm… John.

Operadora: John do quê?

Gillian: Huuumm…. John…. Do…do… Doberman.

Operadora: Que nome interessante. Qual é a origem?

Gillian: (resmungando)… é fictional….

Operadora: O que você disse?

Gillian: Eu disse que é Fenício.

Operadora: Então, porque você ligou? Está interessado em um pouco de “amor”?

Gillian: Sim, isso mesmo. Estou muito interessado, se é que você me entende.

Operadora: Ah sim, eu entendo perfeitamente. Você quer “AMOR”, não é?

Gillian: Sim, sim. AMOR, AMOR. Você sabe onde eu posso conseguir?

Operadora: Claro querido, eu sei onde você pode conseguir. A questão é o quanto você quer?

Gillian: Eu quero muito!

Operadora: Muito quanto?

Gillian: Deixe-me colocar desta maneira…. se eu fosse um gato, eu estaria me limpando agora.

Escute abaixo algumas mdas belissímas músicas do game (Bio Hazard recomendadíssima, é a primeira aí embaixo):

mulherada em peso no game

Jogabilidade

O game praticamente não possui jogabilidade, já que tudo se resume a uma tela de menu onde você deve escolher a ação/diálogos a ser tomada. A cada cenário ou pessoa que encontrar, uma lista de opções vai aparecer. Comandos básicos como “Olhar”, Investigar” e “Mover” estão quase sempre presentes.
nem o smile escapou

Parece simples, mas como a lista de opções é meio grande, as vezes pode ficar complicado. Por exemplo, para abrir uma porta não basta você apenas ir lá e abrir. Você antes tem que olhar, investigar e ver se tem alguém lá dentro, bater na porta, para então parecer a opção “abrir porta”.

  

este é o turbocycle, sua condução pela cidade

Para dar sequência num evento, as vezes é necessário escolher várias opções até conseguir o que quer, seja pegar um objeto, investigar uma cena de crime ou ainda usar um item.

O game é inteiramente investigativo (você é detetive, lembra?) então é preciso fuçar muito, ser curioso, investigar todos os detalhes. Nada aqui tem uma ação direta. Se você quiser pegar um objeto, vai ter que “olhar” e “investigar”, trocar uma idéia com Metal Gear até que Gillian decida pega-lo. Além de poder consultar Metal Gear, você pode usar o computador da Junker, o Jordan. Há muita informação nele que serve como pano de fundo para a história. Em alguns momentos do jogo, você será obrigado a usar o Jordan para descobrir uma maneira de dar sequencia ao game, por isso vai se acostumando com ele.

  

este é o Jordan, informações preciosas dentro dele, como a de informantes do submundo

O jogo tem um enredo adulto, com sangue, morte, um pouco de sedução e sensualidade (como a conversa do sex-fone ou a visita numa boate de strippers). Os textos e diálogos são excelentes, simples mas memoráveis, com frases de efeito, pitadas de humor e assim por diante. Uma das opções para Gillian quando aparece uma garota é passar uma cantada nela, o cara não perde uma chance.

  

isso aí garotão, essas já estão no papo

Cada personagem tem sua personalidade (alguns bem profundos e complexos), assim possui um tipo de voz e texto/diálogo que combinem com ele, tudo para dar mais atmosfera e clima ao jogo.

O enredo, como já dito, é complexo e cheio de momentos chocantes e reviravoltas inesperadas. Tudo isso misturado aos personagens e trilha sonora, fazem deste game uma experiência única.

Snatcher possui ainda algumas cenas de ação, em que você deve destruir Snacthers com sua arma. Uma tela quadriculada aparece onde vários Snatchers aparecem em qualquer ponto da tela. Como em um game de “tiro”, você deve acertar o inimigo com uma mira antes que ele o acerte. Você pode usar o controle do Mega Drive ou ainda a pistola que vinha junto com o game. Cuidado para não morrer e ver um “game over” na tela.

  

use “técnicas especiais” para fazer os sujeitos falarem

Assista à abertura do game abaixo

 

Conclusão: Snatcher é sem sombra de dúvidas um dos melhores jogos do Sega CD, e um clássico na história dos games. Gráficos e cenários maravilhosos, design dos personagens carismáticos, trilha sonora impecável e o melhor de tudo, uma história sombria e envolvente, que te prende já nos primeiros minutos de jogo. Você vai se encantar com a história de Gillian Seed e vai jogar até desvendar todos os mistérios do enredo. E os proprietários de um Sega CD sintam-se privilegiados, pois o aparelho foi o único a ter uma versão oficial (e bem feita) em inglês!

Hideo Kojima podia muito bem deixar a série Metal Gear de lado um pouco e ressuscitar este clássico game para a geração atual, apesar do estilo “adventure” (aquele com menu de opções “olhar”, “pegar”, “mover”) anda meio esquecido já algum tempo. Mas tenho certeza que, um cara criativo e nerdão como ele, consegue bolar algo novo para um sistema de jogo inovador.

Também conhecido como “Digital Comic”, a história realmente se desenvolve como em um gibi, em que você faz mais além do que apenas acompanhar, você vive os momentos de tensão e prazer junto com o personagem principal, você o ajuda nas investigações. Realmente um gibi interativo, um bom nível de inglês é recomendado para poder desfrutar de todas as sutilezas dos textos e diálogos (que são estupidamente bem escritos). Snatcher é um jogo para se desfrutar bem sossegado, sem pressa de jogar. É diversão garantida, mais do que recomendado.

Nome: Snatcher

Sistema: Sega CD

Desenvolvedora: Konami / Hideo Kojima

Ano de Lançamento: 1994

Nota da análise: 9/10

+ Visual e cenários muito bem desenhados, personagens carismáticos e com personalidade
+ Enredo envolvente e criativo, textos e diálogos super criativos, trilha sonora
Jogabilidade limitada, poderia ter mais cenas de ação
Muito fácil, sem fator replay

“All controversy begins with DOUBT”

comentários
  1. Fernando disse:

    Clássico, mesmo um Nintendista ferrenho deve jogar!

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